sábado, 31 de maio de 2008

Ache o Particípio Passado

Uma laranja cai ao meu lado,
Acordo assustado.

- Há quanto tempo estou deitado?

Pergunto pasmado,
Nesse campo largado
Que parece assombrado.

Um sabiá pousa no roçado,
Não canta, permanece calado.

O sabiá é espantado
Por um cavalo pintado
Que corre arretado.

O céu amarelado
Traz um vento gelado,
Fico arrepiado
E com medo danado.

Ao longe um homem aleijado
Faz-me um comunicado:

- Sou um espirito penado
Vim em busca do passado
Ao qual estás atrelado.

Pergunto angustiado:

- A que passado estou atrelado?

Ele responde indignado:

- Na segunda vez que foste encarnado,
Tu foste um conde malvado
De um grande reinado
E eu o teu empregado
A ti devotado.

No tempo determinado
Não o deixava barbado
Arrumava telhado
Alimentava teu gado
Fazia o teu assado
Bordava babado

Porém num dia desgraçado
Acordei atrasado
Com meu labor errado.
Tu irado
Apanhou o machado
Com um golpe fui afetado
Ficando aleijado
Fui humilhado
E do reino exilado.

E assim maltratado.
Fui mirrando sufocado
Minguando isolado
Até morrer ignorado.

Enquanto tu, afortunado
Com o égo inflado
Bailava animado
Por entre o reinado.

Cheguei ao céu magoado
Com o peito irado
Fui excomungado
De lá expurgado

Pois foste por mim julgado
E por mim condenado
A falar só rimado
E tudo terminado
Em ado.
Pois participo do teu passado.

Amaldiçoei e fui amaldiçoado
Agora para sentir-me aliviado
Preciso perdoar para ser perdoado.

Estou cansado
Deste fardo pesado.

Estas perdoado.

- Cruz credo
Daqui não arredo,
Não mexo um dedo
Não guardo segredo
To morrendo de medo

- Para supor, parece-me cedo
Mas não mudamos o enredo,
Só que agora rimamos em edo.

0 comentários: