sábado, 14 de junho de 2008

Três Marias

Eram três meninas, uma era só alegria, a outra só tristeza, mas só a terceira existia. E justamente a terceira, a que existia, vivia confusa: ria de tristeza e chorava de alegria.
Usava bata e essas roupas de “bicho grilo” e, em qualquer lugar, estava sempre com uma máquina fotográfica, só a tirava do ombro para dormir, porque sabia ser impossível fotografar seus eternos sonhos de um mundo melhor.
Dezenas e dezenas de fotografias nas paredes do seu quarto. Era fotografia de um favelado trajando camiseta eleitoral de um deputado gordo, de um sorriso da Fafá de Belém, de um velho picando fumo na varanda de uma casa feia, de um homem entrando de carro numa casa de portão automático, de prostitutas grávidas na Estação da Luz, do Chacrinha, do Papa etc. E um pôster do Bob Dylan.
- Acho que você nunca perdoou o fracasso do movimento hippie na década de sessenta...
Foi num baile, onde dançamos de rosto colado, que embriaguei-me com o aroma da tua pele, da tua carne fêmea, fêmea.
Você, assim sendo, estampei a tua face em minha camisa de algodão, tatuei teu nome no coração, te dei minha alucinação, te fiz uma canção, te dei meu melhor disco do Belchior. Tornei-me o teu cantor de rock and roll, teu ídolo latino, teu herói, teu menino.
Depois de tudo no direito, depois de tudo no avesso, fizemos uma casa pequenina de frente para o mar na praia de Amaralina, Bahia.
Como tínhamos amigos. Turmas e turmas de ótimos amigos e éramos por eles visitados todos os dias. E foram tantos, “os todos os dias”, que o calendário não supriu, e se perdeu, e se confundiu. Não sabíamos do dia, da semana, do mês ou do ano. Só sabíamos das horas de amar e de irmos para o mar.
À tarde eles se despediam e ficávamos a sós no meio de discos fora das capas, livros poéticos entreabertos, violão e guitarra. E, de portas abertas, janelas escancaradas, um resto de sol ora nas minhas costas, ora nas tuas costas, fazíamos sexo por toda casa.
Éramos tão felizes e sadios, sem ferimentos no corpo, na alma e no sentimento.
Nas noites de lua, sentávamos no batente da varanda e ficávamos observando as estrelas e você sonhava em ser uma bailarina e dançar por entre as constelações e, eu sonhava ser um artista, ser um Chico Buarque de Holanda ou um simples Amado Baptista.
Lembra quando precisei viajar e ficamos apenas dois dias sem nos vermos e mesmo assim me escreveu? Saiba que decorei seu telegrama como um adolescente decora uma linda poesia e guarda consigo para sempre. Seu telegrama dizia:

"Querido João:
Ganhei um cavalo de um lavrador da região, aprendi a fazer cocada, estou mais bronzeada, preta, queimada, mais tudo, mais nada.
Beijos;
Maria."

Quando retornei, você estava tão linda, num vestido branco de um tecido rústico. Cabocla de pé no chão.
Em você havia um gosto de te quero mais, e mais e mais. Ah! Maria, minha doce Maria, meu lindo anjo azul, por você desejei tanto sermos imortais.
Mas nós que nunca nos preocupamos com o passar do tempo, chegaram os dias em que nossos passeios a pé por quilômetros e quilômetros de praia saboreando o puro ar marítimo, foram se reduzindo até o dia em que você parou para descansar e não mais se levantou.
Um médico da capital disse que foi porque você já estava com noventa e dois anos, mas isso não é motivo para você ter me deixado. Eu estou com noventa e oito e mesmo assim ainda te espero!
“E eu te espero porque o brilho dos teus olhos é mais quente que o sol do meio dia e aparece atrás dos montes, das montanhas, dos edifícios, das florestas e mais e mais e mais. Mas depois que você partiu o mel da vida apodreceu em minha boca. Apodreceu em minha boca”.Hoje numa posição ereta na praia de frente para o mar, sinto a barba crescer-me na face e o tempo brincando com minha agonia. E debaixo das Três Marias no firmamento, tenho a certeza de que você não pode me responder, mas me ouve: Maria eu ainda te amo.

1 comentários:

Tamara disse...

Que belo!

Belo texto.

Bela historia.

Faz-nos sonhar. Sentir o aroma maritimo. Querer bailar por entre as estrelas e aprender a amar romanticamente.

B-joletas pessoal