domingo, 13 de julho de 2008

O Parafuso

Meu nome é Eva Maria Lã, dentista, quarenta e oito anos, capricorniana, casada, dois filhos.
(Primeiro dia em férias.)
Não havia notado o quanto esta casa é enorme e vazia durante a semana. A Alameda Café Filho mais parece um deserto sem fim, embaixo de um calor que estala sementes nos arbustos dos arvoredos ornamentais. No mais é silêncio e dor.
Uma angústia e um desespero, igual dos prisioneiros perpetuamente condenados.
Nada me agrada: música, vídeo, cinema, clube, orçamento familiar... Se, ao menos, eu soubesse bordar!
Ando pelos quartos e corredores surpreendendo os móveis, vou além do quintal e, no quartinho dos fundos, deparo-me com o passado através de velharias empoeiradas. É uma boneca quebrada, uma esteira de praia, um motor de um Chevrolet cinqüenta e oito, etc. E em cima de um velho guarda-roupa, uma caixinha de sapatos que, apesar do tempo, ainda se vê nitidamente figurinhas coladas nas laterais e na tampa, limpo-a com as mãos e a abro. Neste momento, meus olhos brilham, como brilham os olhos das lindas adolescentes.
O conteúdo dessa caixa é um verdadeiro arquivo de vida organizado em data decrescente. São cartas tristes e românticas do meu ex-marido; um cartão da falecida Dona Lourdes me desejando um feliz Natal em 1964; uma fotografia de quando eu tinha seis anos; um chumaço de algodão envolvendo um par de brincos; um postal da Itália enviado pela Goreth durante as férias de 1960; um bilhete do Barreto me pedindo em namoro. Foi a primeira declaração de amor que recebi, eu era tão moça e ele um bom rapaz que me protegia dos malefícios da vida, carregava meus livros e comprava doces na cantina da tia Amélia, mas eu só o tinha como a um querido amigo; um poema de Drummond escrito num guardanapo do restaurante Blue Moon Sea em 1959 e lá, no cantinho do fundo da caixa, um parafuso.
Eu estava com quatorze anos quando fui pela primeira vez sozinha ao centro de São Paulo. Só em pensar me dava frio na barriga, foi passando pelo Viaduto do Chá que debrucei-me sobre os braços no parapeito do viaduto, e fiquei horas observando aquelas pessoas que andam no meio dos automóveis, procurando naquele imenso garimpo, um tesouro chamado felicidade. Eu nada entendia sobre trabalho, pressa ou suor. Despercebida, afrouxei um parafuso daqueles que no viaduto sustentam as luminárias e, de repente estava solto nas minhas mãos e, o guardei como lembrança da minha primeira viagem expedicionária a um lugar cheio de novidades a serem descobertas como aquele.
O que é a vida da gente, se não isso: lembranças do passado, luta no presente, esperança no futuro e eternidade com adesão e anuência pessoal a Deus. O que é maravilhoso.
Literalmente, com diz o ditado: esse é o parafuso que falta na minha cabeça.
Agora aperto essa sagrada caixinha no peito e choro suspirando...
Como é bom estar em férias, ser sadio, estar em harmonia com Deus, com a vida. Dar e receber carinho do meu amado esposo.
- Lucas meu filho, você já chegou da escola... Vem aqui, vem... Dá um abraço na mamãe, dá.

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