Brodosqui, São Paulo. Sim, é a mesma cidade em que nasceu Cândido Portinari. Novembro de 1.969, a televisão era novidade em nossa casa, que tinha laranjeira, tinha abacateiro, tinha goiabeira, tudo no quintal. Eu, com sete anos, deslumbrada, fascinada com o céu, a lua e as coisas da vida. Sonhava tanto. Queria ser médica de criança para melhor cuidar da minha irmã, que a mim parecia ser tão delicada, frágil como um coelhinho assustado.
Eu criança...
Quantos sonhos, fantasias. Quanto algodão doce, amendoim. Quanto circo, roda gigante. Quanta saudade agora em lembrar...
Meu pai trabalhava longe, as vezes ficava até três dias fora de casa e eu ansiosa, todas as tardes o aguardava sentada no batente vermelhão da varanda, encerado com a cera “Cardeal”. E com o peito inquieto e reduzido pela vontade de um forte abraço, lembrava da hora em que partiu. Era sempre pela manhã, sempre fazendo frio, eu corria da minha cama, olhava minha irmã no berço e ia deitar no lugar dele, que estava sempre quentinho ao lado da minha mãe, ouvia o chuveiro ligado, o portão batendo, momentos depois o barulho do trem parando e saindo da estação. Me encolhia por entre lençóis e cobertores imaginando meu pai naquele frio lá fora embarcando.
Mas quando ele retornava, era tanta alegria, ali naquela varanda. Ele sempre com um invólucro de papel cinza, escrito: “Mercearia Flor da Vila Helena” e este cheio de Drops “Ducora”, “Banda”, “Balas Juquinha” e doces de abóbora em forma de coração, me entregava com um sorriso na face e a satisfação de quem ama e é amado. Satisfação esta, maior para um homem não há.
Meu pai... Oh!!! Meu pai. Minha mãe, minha irmã, tá doendo tanto. Doe muito em largo e profundo no peito, essa lembrança nostálgica que agora me invade e corroei a alma.
Lembro também que nesta mesma época, numa noite, eu brincava no balanço, num galho de goiabeira e meu velho pai me chamou aos gritos: Filha, filha... Vem vê no noticiário da televisão: O homem chegou à lua. A lua que você gosta tanto. Não lembro de pé, nem chão, imediatamente estava eu lá, com olhar fixo no aparelho televisor, invejando aqueles homens que sem nenhum pudor pisavam na minha amada. E não satisfeita em vê-la apenas pela televisão, abri a janela e lancei meu olhar para o céu procurando a grande musa inspiradora de tantos poetas românticos. Meu corpo como se levitasse procurando gravidade na terra, pairava entre a luz da lua e a janela entreaberta.
No dia seguinte acordei ainda mais alucinada, minha cabeça atordoada e fui até minha irmã para pedi perdão por não mais querer ser médica de criança e sim uma astronauta e ir para lua, e ela ainda bebe sem poder me responder, foi como se dissesse: Me leva com você, no teu sonho de futuro bom, que é mais lindo do que o meu.
Neste mesmo dia, chamado de seguinte, meu pai levou-me a uma doçaria na Avenida principal da cidade, foi quando e onde eu vi pela primeira vez uma mulher dirigindo um automóvel sozinha. Quando ele murmurou: “O homem chegar a lua, tudo bem, mas uma mulher dirigir automóvel... Isto é demais, os tempos estão mesmo mudados”. Com isso percebi o tamanho da dificuldade que eu teria pela frente.
... Meu pai acabara de dar-me mais uma lição de vida. Que para realizarmos sonhos lunáticos precisamos acima de tudo termos os pés e pneus no chão, primeiro, construamos bases sólidas com alicerces profundos feitos à pá aqui na terra e, depois lancemo-nos ao espaço sideral para realizarmos qualquer sonho, qualquer desejo, por mais absurdo que este possa parecer.
Hoje, minha irmã continua sendo frágil e delicada como um coelhinho assustado. Não sou pediatra, mas tenho um filho lindo, o qual cuido muito bem. Não sou astronauta, mas de vez em quando pouso na lua para descansar perdida nos meus pensamentos sobre o significado da vida e o infinito. E outra coisa... Dirijo automóvel melhor que meu marido e isto não significa absolutamente nada diante da cumplicidade existente entre ele e eu.
Beijos: Patrícia.
Eu criança...
Quantos sonhos, fantasias. Quanto algodão doce, amendoim. Quanto circo, roda gigante. Quanta saudade agora em lembrar...
Meu pai trabalhava longe, as vezes ficava até três dias fora de casa e eu ansiosa, todas as tardes o aguardava sentada no batente vermelhão da varanda, encerado com a cera “Cardeal”. E com o peito inquieto e reduzido pela vontade de um forte abraço, lembrava da hora em que partiu. Era sempre pela manhã, sempre fazendo frio, eu corria da minha cama, olhava minha irmã no berço e ia deitar no lugar dele, que estava sempre quentinho ao lado da minha mãe, ouvia o chuveiro ligado, o portão batendo, momentos depois o barulho do trem parando e saindo da estação. Me encolhia por entre lençóis e cobertores imaginando meu pai naquele frio lá fora embarcando.
Mas quando ele retornava, era tanta alegria, ali naquela varanda. Ele sempre com um invólucro de papel cinza, escrito: “Mercearia Flor da Vila Helena” e este cheio de Drops “Ducora”, “Banda”, “Balas Juquinha” e doces de abóbora em forma de coração, me entregava com um sorriso na face e a satisfação de quem ama e é amado. Satisfação esta, maior para um homem não há.
Meu pai... Oh!!! Meu pai. Minha mãe, minha irmã, tá doendo tanto. Doe muito em largo e profundo no peito, essa lembrança nostálgica que agora me invade e corroei a alma.
Lembro também que nesta mesma época, numa noite, eu brincava no balanço, num galho de goiabeira e meu velho pai me chamou aos gritos: Filha, filha... Vem vê no noticiário da televisão: O homem chegou à lua. A lua que você gosta tanto. Não lembro de pé, nem chão, imediatamente estava eu lá, com olhar fixo no aparelho televisor, invejando aqueles homens que sem nenhum pudor pisavam na minha amada. E não satisfeita em vê-la apenas pela televisão, abri a janela e lancei meu olhar para o céu procurando a grande musa inspiradora de tantos poetas românticos. Meu corpo como se levitasse procurando gravidade na terra, pairava entre a luz da lua e a janela entreaberta.
No dia seguinte acordei ainda mais alucinada, minha cabeça atordoada e fui até minha irmã para pedi perdão por não mais querer ser médica de criança e sim uma astronauta e ir para lua, e ela ainda bebe sem poder me responder, foi como se dissesse: Me leva com você, no teu sonho de futuro bom, que é mais lindo do que o meu.
Neste mesmo dia, chamado de seguinte, meu pai levou-me a uma doçaria na Avenida principal da cidade, foi quando e onde eu vi pela primeira vez uma mulher dirigindo um automóvel sozinha. Quando ele murmurou: “O homem chegar a lua, tudo bem, mas uma mulher dirigir automóvel... Isto é demais, os tempos estão mesmo mudados”. Com isso percebi o tamanho da dificuldade que eu teria pela frente.
... Meu pai acabara de dar-me mais uma lição de vida. Que para realizarmos sonhos lunáticos precisamos acima de tudo termos os pés e pneus no chão, primeiro, construamos bases sólidas com alicerces profundos feitos à pá aqui na terra e, depois lancemo-nos ao espaço sideral para realizarmos qualquer sonho, qualquer desejo, por mais absurdo que este possa parecer.
Hoje, minha irmã continua sendo frágil e delicada como um coelhinho assustado. Não sou pediatra, mas tenho um filho lindo, o qual cuido muito bem. Não sou astronauta, mas de vez em quando pouso na lua para descansar perdida nos meus pensamentos sobre o significado da vida e o infinito. E outra coisa... Dirijo automóvel melhor que meu marido e isto não significa absolutamente nada diante da cumplicidade existente entre ele e eu.
Beijos: Patrícia.


1 comentários:
Clebito,
Alterei a url do meu blog.
B-joletas violetas
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