quinta-feira, 23 de outubro de 2008

VIAGEM VIRTUAL

Oi Maria, tudo bem?
Que tal acompanhar-me numa viagem ao tempo e ao espaço? ... Se você aceitar é só seguir corretamente as instruções abaixo:
Primeiro: A cada parágrafo, feche os olhos e imagine. Tente visualizar a cena que descrevi.
Segundo: Esteja “com a mente quieta a espinha ereta e o coração tranqüilo”.
Terceiro: Leia até o fim.
Quarto: Quando terminar de ler, deixe vir naturalmente ou force um suspiro.
Se está pronta para seguir as instruções! Então vamos começar nossa viagem.
O tempo é 21, de setembro, 1.995, um sábado, às oito horas de uma manhã quente.
O espaço é a Rua Olhai Os Lírios Do Campo, 25, minha casa e a sua 26 bem na frente, Aracati, uma típica cidade litorânea cearense. Aracati é uma cidadezinha pacata, com pouco mais de dezoito mil habitantes, cuja economia é baseada praticamente na pesca e no turismo de alguns aventureiros, pois lá não existe cinema. Pela manhã a cidade é tomada pelo cheiro de café com leite, pão e manteiga, ao meio dia pelo cheiro de feijão bem temperado e a noite por camarão frito e servido nos pequenos quiosques a beira mar. Só tem um hotel e de vez em quando esta monotonia só é interrompida por um ou outro circo que eventualmente aparece. Muitas de suas casas ainda mantém a arquitetura do início do século passado, suas ruas são de paralelepípedos o que faz aumentar mais ainda o calor que a cidade sempre teve debaixo daquele sol estonteante, o índice de violência é “zero”, salvo alguns moleques ladrões de galinhas. Enfim, aqui na Terra, Aracati é a cidade mais próxima possível do paraíso.
Neste lugar e neste exato momento, acordo já pensando em você Maria, sei que terei de ser rápido ao me aprontar, pois as oito e trinta, você estará saindo para ir as compras do dia, e como sempre não posso perder a oportunidade de te ver passando, linda com seu vestido rodado cheio de florzinha. E eu com o pretexto de lhe desejar um simples bom dia, me aproximo o mais perto possível para sentir o doce aroma da sua pele, aroma de quem acabou de sair dum banho demorado com sabonete “seiva de alfazema”.Ah! Maria... O seu jeito especial, o seu corpo solto ao vento não sabem do meu sofrimento. Fico completamente desnorteado, não sei o que é sul ou o que é norte, o que é céu ou que é terra, sinto o chão faltar-me aos pés, meu corpo explode em desejos e paixão, e os meus lábios tremem só em pensar num beijo teu.
Mas se Deus me ajudar, ainda hoje declararei o meu amor por você. Entretanto, você vai e volta das compras e mais uma vez não tenho coragem para tomar qualquer iniciativa nesse sentido.
O dia vai passando lento e dolorido e, o meu peito é só agonia, não tenho apetite, sede ou sono. Sou só desejos por você Maria.
Oito horas da noite, o calor agora é insuportável, eu estou deitado e não consigo dormir. Levanto, tomo um banho de água fria, tento te esquecer, mas percebo que te esquecer e negar minha própria existência. Abro a janela e do outro lado da rua você está debruçada sobre o parapeito da janela do seu quarto, observando o pequeno movimento da rua e o céu que desta vez está mais estrelado do que nunca antes visto, apresentando uma lua cheia e enorme no centro do firmamento. Eu penso:... Moça bonita, sai dessa janela e me deixa dormir em paz.
Dez horas da noite e a única coisa que mudou nesse cenário foi a posição da lua, que agora está no horizonte adentrando ao continente.
De repente sou tomado por uma súbita coragem vinda não sei da onde, e de forma natural começo a cantar com voz de cantor lírico:

“A lua girou, girou,
Traçou no céu um compasso.
Eu bem queria fazer,
Um travesseiro dos seus braços”.

E para minha surpresa, ouço sua voz a responder:

“Travesseiro dos meus braços,
Só não faz se não quiser.
Sustente a palavra de homem,
Que eu mantenho a de mulher.”


(Nota: Entre aspas, música de domínio popular, gravada por Milton Nascimento.)

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