segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

TUBERCULOSE MADRIGAL

Para os poetas... tuberculose.
(Doença vinda da Europa, e na época da industrialização brasileira facilmente expandida entre nossos trabalhadores, que se aglomeravam em pequenos pavilhões industriais até tarde da noite, pois não havia uma legislação trabalhista e tudo era válido. No princípio apelidada de doença de fábrica, nos tempos em que São Paulo era conhecido como a Terra da Garoa,).

Dedicado aos saudosos poetas: Álvares de Azevedo e Manuel Bandeira, entre outros.

TUBERCULOSE MADRIGAL.
Meu anjo da guarda foi atropelado quando por alguns instantes me abandonou.
De vez em quando saio daqui do sertão do Piauí e vou visitar uma amante que tenho na Dinamarca. Vou à loucura quando fazemos sexo verbal em chinês pela Internet.
Não quero papel higiênico picotado e perfumado no banheiro, nem tão pouco o glamour dos shoppings. Eu quero é a cabeça dos filósofos, dos poetas, dos livres pensadores, dos intelectuais, dos autodidatas incertos e inseguros, dos loucos desvalidos. Eu quero a consciência turva, nebulosa dos homens turunas bêbados em botequins.
Eu quero morrer na rua da lama, numa cama de uma casa de luz vermelha, no colo de uma meretriz dizendo que eu nunca precisei pagar e se paguei foi porque quis. Quero morrer aos vinte anos de tuberculose adquirida no sereno das noitadas mal dormidas, mal alimentado, de gripe mal curada, como os recém camaradas operários destas tais fábricas. Perambulando, filosofando de bar em bar pelas ruas da cidade, como os saudosos poetas amantes das prostitutas também infectadas, desamparadas, mal amadas. Sentindo o fim da vida acabando com meus planos, transformando meus dez enganos de ser feliz em realidade. E eu lamentando e dizendo só não o fui porque não o quis.
Eu quero dar um beijo em você oh, Beatriz, bem na ponta do teu nariz inglês. E que você me ame só o suficiente para entregar-se a mim apenas uma vez, pra depois me odiar, e blasfemar, e se arrepender do bem que me fez, e do mal que te fiz.
Há um punhal pontiagudo no meu peito, o cano dum revolver em meu ouvido direito, uma corda em laço no pescoço. O que me alimenta o corpo, traz-me um grande desgosto para continuar vivendo e eu bebendo te amando e te perdendo.
Estou cansado de carregar minha própria cruz e no mesmo ombro Jesus
“Será mesmo? Que no fundo do poço há um porão?”
Meu amor, ensina-me a sonhar na claridade de um dia madrigal. Mostre-me o prazer da vida na hora da morte. Perdoe-me durante o pecado. Absolva-me antes do delito. Jure-me amor eterno por trinta segundos. Jure-me fidelidade enquanto és cobiçada e faça-me entende que é apenas um dia madrigal. Nada mais, pois não há mais nada para os tolos alem do lirismo.
Ano passado, apesar desta chaga no peito e na alma, quase fui feliz. Se não fossem a mediocridade e a hipocrisia minha e social humana, eu teria casado com uma flagelada da seca nordestina, mas em vez disso, profanei túmulos e estuprei cadáveres, pois era o que me restava:... Estuprar cadáveres femininos, tendo apenas a alcoviteira e romântica lua, por entre as covas, como testemunha, nada mais, mais uma vez nada mais.
Neste mesmo ano quase realizei-me economicamente dizendo. Se não fosse o aumento absurdo da barra de gelo que conserva minhas ampolas de penicilina... Eu teria ficado rico, com certeza.
Estou mesmo muito cansado de carregar minha própria cruz e no mesmo ombro Jesus.

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